AAT monta em São Paulo uma das estruturas mais modernas do Brasil para fabricar produtos de áudio
Com tantas opções em produtos importados, em todas as faixas de preço, ainda vale a pena fabricar produtos de áudio no Brasil? Quem fizer essa pergunta a João Yazbek, fundador e diretor da AAT (Advanced Audio Technologies), não precisará esperar muito pela resposta: o empresário só vê vantagens nessa sua opção.
“Muitos dizem que não é possível produzir áudio no Brasil de forma competitiva, mas não é bem assim. No segmento de CI (custom installation), nós conseguimos desenvolver, produzir e vender a preços bem competitivos”, diz Yazbek, que em outubro último inaugurou uma das maiores, se não a maior fábrica de caixas acústicas e amplificadores do país.
A unidade, que visitamos em março, tem cerca de 3.000m2 e foi montada no bairro do Ipiranga, num galpão que tem tudo a ver com o processo de industrialização da capital paulista – ali funcionavam as tecelagens da Família Jafet, que no século passado foi um dos maiores grupos industriais da América Latina.
Mais de 250 produtos de áudio fabricados no Brasil
“O mais importante de ter uma fábrica no Brasil é a agilidade no desenvolvimento dos produtos”, continua Yazbek. “A solução dos problemas é muito mais ágil, com assistência técnica e suporte próprios. Conseguimos ter um lineup de mais de 250 produtos! Importar isso tudo e gerenciar toda a logística da distribuição, reposição de peças etc. é simplesmente impossível”.
Antigo engenheiro da Philips, tendo inclusive morado na Holanda por alguns anos, Yazbek adquiriu grande experiência com as questões relacionadas à fabricação de eletrônicos e sua distribuição no mercado internacional. Em 2006, decidiu empreender montando uma fábrica de componentes para automação industrial. A marca AAT nasceu em 2014, com a proposta de oferecer alternativas de qualidade a preços mais atraentes que os das marcas internacionais.
Nesta entrevista, ele e sua esposa Mônica, também engenheira e cofundadora da empresa, apresentam a nova fábrica (veja também o vídeo que produzimos) e analisam as mudanças que o mercado de consumo de áudio vem experimentando nos últimos anos:
P – O que essa fábrica tem de diferente?
R – São duas unidades: uma marcenaria, que fornece as caixas de madeira, e a unidade de manufatura com 70 pessoas na produção. Todos os nossos produtos são montados lá. Funcionamos como uma montadora de carros. Fazemos o sourcing das partes lá fora de acordo com a nossa especificação, montamos, fazemos os testes, tudo nessa fábrica. Ela nos permite ter uma linha completa de produtos: caixas, subwoofers, amplificadores, cabos e condicionadores de energia (veja o slideshow). E complementamos com os importados, que são hoje 20% da nossa linha.
P – Quais são as vantagens de produzir tudo em casa?
R – Basta dizer que temos hoje a maior linha de subwoofers do Brasil e 18 opções de multiroom, incluindo uma matriz sem amplificador. Tudo desenvolvido e fabricado por nós. Ninguém tem isso no mercado brasileiro! Ter uma fábrica como essa significa capacidade de desenvolvimento de acordo com a realidade brasileira, pois trabalhamos muito próximos dos integradores e sabemos o que eles buscam e precisam.
“Fazemos questão de manter estoque
de componentes, mesmo para aparelhos usados.
E nós mesmos fazemos o reparo”.
P – Como funciona na prática esse trabalho junto aos integradores?
R – Ouvimos muito os integradores ao desenvolver nossos produtos. E, depois da venda, garantimos todo o suporte necessário, inclusive com treinamentos contínuos e apoio nos projetos deles. Há produtos lançados dez anos atrás que, se fossem importados, já estariam no lixo. Nós fazemos questão de manter estoque de componentes obsoletos, ou seja, se der problema num aparelho, mesmo que seja usado, o integrador nos envia e nós fazemos o reparo.
P – E como vocês conseguem atender integradores em todo o país?
R – Pois é, criamos uma estrutura muito enxuta de distribuição e atendimento. Não terceirizamos a distribuição, nem temos representantes. O integrador pode nos ligar quando quiser que nossa equipe é treinada para resolver. Nossos atendentes conhecem todos os produtos que fabricamos. Além de ser mais prático e eficiente, isso resulta em preços mais baixos, porque não precisamos pagar comissões a intermediários. E não vendemos direto ao público, somente para integradores.
P – Vocês têm estrutura própria de entrega e despacho dos produtos?
R – O próprio integrador decide como quer recebê-los. Ele é quem conhece a região onde atua e sabe qual é a transportadora que atende melhor, então deixamos essa parte por conta dele. Aqui, centralizamos venda e pós-venda. Costumamos dizer que a AAT é uma one-stop-shop: se o integrador quiser, ele faz um projeto de áudio inteiro só com nossos produtos. E terá todo o suporte que precisar, inclusive no projeto e na pré-venda.
As vantagens de ser fabricante e também distribuidor
P – Recentemente, vocês criaram a AAT Distribution, ou seja, além de fabricantes se tornaram também distribuidores. Como é conciliar essas duas atividades?
R – Temos uma engenharia interna que, além de desenvolver os produtos, avalia importados, coisa que pouca gente faz no Brasil. Avaliamos cada produto e cada peça que trazemos de fora. Ser fabricante e também desenvolvedor te dá essa capacidade de saber exatamente o que você está vendendo. Há empresas que se dizem fabricantes, mas são apenas distribuidores de produtos importados. Trazem as peças da China, montam, colocam sua marca e vendem. Na prática, não sabem o que estão vendendo. Na eventualidade de um problema de suporte, não sabem como atender.
P – Como vocês avaliam hoje o mercado de áudio no Brasil? Muito diferente de quando a empresa começou, não?
R – Há cerca de dez anos, decidimos nos posicionar como middle-market, e hoje vemos que foi uma opção acertada. Não trabalhamos com produtos populares, porque teríamos que abrir mão da qualidade e é impossível competir com os preços dos chineses. E também não somos um fabricante de high-end, porque vemos que esse mercado está acabando no mundo inteiro. Esse consumidor está migrando do home theater e do áudio high-end para soluções de áudio e vídeo na área gourmet, som ambiente e áreas externas da casa. E nós temos bons produtos para tudo isso.
“As pessoas hoje têm hábitos
diferentes. Antes, o receiver era o
centro da casa. Hoje, é a TV”.
P – Como definir esse middle-market? Quem é esse público?
R – Middle-market é quando você tem produtos de boa qualidade a um preço razoável. Não vamos ter a margem de um produto high-end, mas temos um volume significativo. Tanto que hoje somos o maior fabricante de áudio/vídeo do segmento CI (integradores) que tem fábrica no Brasil. A verdade é que o consumidor não fica mais sentado naquela sala dedicada, como era 30 anos atrás, preocupado em ouvir a respiração do cantor ou o passarinho cantando na caixa traseira. O mercado mudou. Ele está tomando uma cerveja ou um vinho, comendo sua picanha e ouvindo música do Spotify.
P – Qual é a explicação para esse fenômeno?
R – A questão é que as pessoas hoje têm hábitos diferentes. O streaming tem muito a ver com isso. Antes, o receiver era o centro de tudo na casa, tanto estéreo quanto multicanal. Hoje, a TV faz esse papel, todas as fontes estão ligadas a ela. Com a conexão HDMI ARC, os paradigmas mudaram. Daí o crescimento dos amplificadores de streaming, hoje um dos nossos principais produtos. Até a classe A tem migrado para o tipo de produto que vendemos!
P – Isso explica também o crescimento das soluções para automação residencial?
R – Sim, mas não é aquela automação da Alexa ou do Tuya (marca chinesa de acessórios baratos). Hoje, há grande influência do arquiteto nos projetos, o que faz muitos consumidores preferirem caixas de embutir, por exemplo. Eles procuram o arquiteto para fazer AV e automação na casa inteira. Ou então soluções arquitetônicas, como as caixas italianas Garvan que estamos importando. São produtos de alto padrão, não baratos, mas que conquistam o consumidor pela estética, com uma ótima qualidade de áudio.
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